19 de Setembro de 2016
Vingança à brasileira
Por Mario Sabino
Depois de dez meses de idas e vindas, Eduardo Cunha foi cassado. Escrevi em O Antagonista:
“Apesar de você, obrigado, Eduardo Cunha. Ou por causa de você, obrigado, Eduardo Cunha.”
Devemos ao ex-presidente da Câmara, que agora terá de se haver com o juiz Sergio Moro, o impeachment de Dilma Rousseff. Não há como negar: o seu ato de vingança foi essencial para apeá-la do poder. Se não tivesse aceitado o pedido do trio Hélio Bicudo, Miguel Reale Jr, Janaína Paschoal, é provável que Dilma ainda continuasse a presidir o Brasil, apesar de todos os seus crimes e com todas as consequências funestas que isso significaria. Aos petistas restou vingaram-se de Eduardo Cunha votando pela cassação dele. Essa história ainda não acabou. O peemedebista disse que contará em livro toda a história do impeachment. Aguardamos ansiosamente, visto que deve sobrar também para seus colegas de partido.
Livramo-nos de duas pragas graças à vingança, sentimento que ensinamos às crianças ser feio, mas que na política brasileira tem servido como antibiótico. Senão, vejamos:
Em 1992, Fernando Collor caiu porque o seu irmão, Pedro, deu uma entrevista bombástica à Veja, para contar as relações promíscuas entre o então presidente e o seu tesoureiro, Paulo César Farias. Pedro estava fulo com o fato de Fernando ter cantado a sua mulher, a calipígia Thereza.
Em 2005, a mesma Veja tentou circunscrever o escândalo de corrupção nos Correios, revelado pela revista, ao PTB de Roberto Jefferson. Ao perceber que o PT estava armando para cima dele por meio da Veja, o petebista procurou a revista para denunciar o mensalão e foi repelido (presenciei o fato). Jefferson, então, soltou o verbo na Folha de S. Paulo, para contar que o esquema era muito maior e comandado pelos petistas.
Roberto Jefferson foi condenado no mensalão, assim como Eduardo Cunha será condenado no petrolão. Ambos levaram consigo os seus algozes.
A morte dos vingativos é final comum no gênero literário-teatral conhecido como “peças de vingança”, do qual William Shakespeare é o maior mestre. As “peças de vingança” nacionais, contudo, não estão à altura de um bom dramaturgo. Os seus personagens são demasiado estúpidos.
Fernando Collor foi estúpido ao achar que o irmão seria corneado mansamente. O PT foi estúpido ao acreditar que poderia jogar a culpa da corrupção sobre Roberto Jefferson, sem que ele reagisse. O PT foi igualmente estúpido ao imaginar que poderia anular Eduardo Cunha na presidência da Câmara, um dos cargos mais poderosos da República.
Havia algo de podre no estado da Dinamarca, para citar a frase de Marcellus em “Hamlet”, a “peça de vingança” mais popular de Shakespeare. Há algo de podre no estado do Brasil. Não precisamos, contudo, de fantasmas magníficos para os nossos personagens vingarem-se uns dos outros.
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