Ele se ressentia da ausência dos pais, e eu lutava contra o tédio, avassalador, do posto.
Antes de o Sol escancarar, dava uma lida nos livros do Cláudio, ele ficava me esperando à porta do tapiri onde eu dormia, aguardando eu sair da rede, recolher o mosquiteiro, e então me dava as mãos, e partíamos para nos banhar nas águas do Xingu.
Tudo o que fazia, ele repetia. Havia lhe dado uma escova de dente, e ele então a usava, passava sabonete no corpo, nadava, mergulhava comigo, sempre repetindo todos os meus atos.
Durante o dia permanecíamos juntos, ele nada entendia do que eu falava, o mesmo se passando comigo, por desconhecer completamente a língua Suiá.
Nem por isso nossa relação perdia em calor, afeto, entendimento. Os dias e semanas arrastavam-se monotonamente.
Como não suporto a cozinha indígena, ele me abastecia de frutas, principalmente mangas, saborosas nessa região.
Um dia despenca um temporal, e lá fomos apanhá-las, já que caiam sob a força dos ventos, produzindo estalidos nos galhos e barulho no tombo. E tudo fazíamos para impedir que se chocassem contra o chão.
Por ter pernas mais longas, ganho uma corrida e recolho duas mangas, antes de caírem no solo, chegando à sua frente.
Seu rosto se contrai, os olhos revelam decepção. Não sei o que fazer. Fico sem saber como agir. Ele se retira, olhando para o chão, sem me fitar, sem se despedir, pois sempre nos dávamos as mãos quando isso acontecia.
Recolho-me para o meu tapiri, puto da vida, o temporal passa, e logo depois ele reaparece, com duas mangas nas mãos, e me oferece. Havia, soube depois, subido na mangueira, e as recolhido, direto dos galhos. Mesmo assim, revelava decepção.
Soube então que ele correra comigo, não para disputá-las, mas para me oferecer.
Na minha pressa de civilizado, competitivo, havia impedido o seu gesto. Esse gesto eu lhe negara. Nunca mais nossas relações foram as mesmas, e nem mais poderiam ser, assim eu entendi!...
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