sábado, 4 de junho de 2016

Dossiê PT


José Roberto Burnier esteve na Venezuela: 'aquilo vai explodir'

Voltar à Venezuela foi um choque. Já havia estado ali, desde 2003, diversas vezes.
Sempre foi um país pobre, Caracas sempre teve favelas enormes, impactantes e violentas.
Com a gasolina quase de graça, o trânsito sempre foi caótico e
carregado de carros e caminhonetes seis cilindros caindo aos pedaços.
O povo sempre foi amável e resignado.
De 99 a 2013, o país teve um dono, Hugo Chávez. Um paraquedista do exército que, literalmente, caiu do céu para os ouvidos famintos de 70% da população abaixo a linha da pobreza.

Agora, 2016, o país é outro.
Está mais pobre. Oito de cada dez habitantes não têm o mínimo para sobreviver.
Falta comida. Os produtos essenciais da cesta básica desapareceram.

Maduro, o sucessor do finado Chávez, perdeu o controle sobre a economia. Limitou tanto a entrada e saída de dólares do país que as empresas não têm como importar
insumos.
Sem insumos, elas param de fabricar. E o produto some das prateleiras.
E quando some algo, o preço dispara.
De abril de 2015 a abril de 2016,
o preço da cesta básica subiu 718%.
O país tem a maior inflação do mundo.
A venda de produtos básicos é racionada. Cada pessoa só pode comprar, uma vez por semana, dois pacotes por produto. O rodízio é feito pelo último número do documento de identidade.
São oito horas de fila para, muitas vezes, o supermercado informar que, naquele dia, nada vai chegar.

Falta remédio. Nos hospitais públicos não há gaze, cateter, esparadrapo, ampolas,
seringas, nem antibióticos.
Parentes de internados dormem na calçada, em frente ao hospital, porque se o doente precisar de remédio, eles têm que tentar achar na farmácia particular. Mas lá também não tem.
As filas se repetem atrás dos medicamentos.
O que há, em todo o país, é racionamento de água e energia.
Água, duas vezes por semana.
Energia, cortes diários.
E o inevitável: a violência disparou.
A Venezuela é hoje o segundo país mais violento do mundo. Ano passado, Caracas levou o título mundial com 119 mortes violentas por 100 mil habitantes.

Nicolás Maduro finge que não vê.
Bota a culpa na “conspiração” de empresários, da mídia e de políticos da oposição.
Enquanto o povo pede comida e remédio, ele entrega exercícios com as Forças Armadas
e com as milícias civis. Maduro perdeu o Congresso, mas controla o judiciário.
O referendo revogatório, previsto na constituição, não sai porque a justiça eleitoral
faz corpo mole. Se ocorrer depois de janeiro do ano que vem, assume o vice de Maduro e nada muda.
As manifestações se multiplicam, cada vez mais com a presença da classe média.
O povo deixou de ser amável e resignado.
Aquilo vai explodir.

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