É fato que o discurso da direita true neocon - dizendo que "tucanos e petistas vivem um conchavo, sempre para ajudar os últimos - não tem fundamento. É mais baseada na exploração do agencialismo humano, com um tanto de retórica do "todos contra nós". Porém, isso pode até gerar views em websites e no conteúdo em geral, mas não tem se revertido em resultados políticos efetivos. É óbvio: o ser humano trabalha por motivação e recompensa. Mas se a recompensa fica muito distante - por causa do inimigo "poderoso demais, já que todos estão contra nós" - a motivação baixa. Talvez por isso movimentos como MBL e Revoltados Online levem gente às ruas, mas movimentos pedindo "lutas contra todos que estão aí" nada conseguiram em termos de resultados. Previsível.
Portanto, tudo o que falarei aqui nada tem a ver com a hipótese falida de "conchavos de todos em favor do PT, e, na verdade, do socialismo internacional".
Mas é fato que o senador Aécio Neves não consegue fazer uma oposição assertiva. Tem sempre apelado ao discurso frouxo. É chamado de "golpista" por todos os cantos e humilhado das mais diversas formas pelos petistas, que não param de atacá-lo. Em termos de ataque, ele ainda é o garotinho que dá até um raro cascudinho no bully da escola, mas só depois de ter tomado vários socos. E na maioria das lutas, só ele apanha. E todos riem dele. A vida dele é apanhar do PT, e quase nunca bater.
BRASÍLIA - O presidente do PSDB, senador Aécio Neves (MG), decidiu rever sua estratégia de atuação política no Congresso e adotará este ano uma linha mais propositiva em relação a 2015, quando se empenhou durante praticamente o ano inteiro no afastamento da presidente Dilma Rousseff. O tucano apresentará ao presidente do Senado, Renan Calheiros (PMDB-AL), uma agenda mínima de votações de interesse do partido na Casa.
Ainda assim, Aécio avaliza a ação de oposicionistas da Câmara de tentar desgastar o ex-presidente Luiz Inácio Lula da Silva com cobranças por explicações e uma eventual convocação do petista para a CPI do Carf. E, por tabela, reacender o debate sobre a retirada de Dilma, conforme revelou o Estado nesta segunda-feira, 15. A avaliação de aliados do tucano é de que o enfraquecimento de Lula o favorece num possível confronto direto numa disputa presidencial antecipada ou em 2018.
É a mesma frouxidão mostrada nas eleições de 2014. Aécio foi acusado de bater na esposa e de usar cocaína e ainda caiu na conversa de que "ele estava sendo agressivo demais".
A mudança de atuação do tucano, o maior representante da oposição no Legislativo, decorre de uma série de avaliações feitas por aliados e assessores próximos. Desde o segundo semestre do ano passado, pesquisas mostraram uma queda das intenções de voto em Aécio em simulações de corrida presidencial e ainda um aumento de rejeição.
O aumento de rejeição acontece porque o PT o ataca. Só isso. E a diminuição de apoio acontece porque ele age como frouxo, e agora é facilmente visto como colaboracionista por muitos da direita. Convenhamos: quanto maior a frouxidão demonstrada por ele, mais fácil vai ser apontá-lo como colaboracionista. A única forma de Aécio Neves sair disso é começar a atacar, mas nota-se que ele escolheu a estratégia fracassada das eleições de 2014... de novo.
Levantamentos qualitativos internos identificaram Aécio como um senador que não propunha saídas para superar a crise. As sondagens também mostraram uma corrosão na imagem do PSDB pelo apoio às pautas-bomba. Uma delas foi o aval maciço da legenda à tentativa de derrubar, em setembro, o fator previdenciário, regra de aposentadoria instituída no governo Fernando Henrique, em 1999, para diminuir o déficit da Previdência Social.
É claro que esses "levantamentos qualitativos internos" não valem nada. Não é que "Aécio não propunha saídas para superar a crise". É que ele foi atacado com o rótulo de "golpista", de "mau perdedor" e de aquele que prefere o "quanto pior, melhor" em maior quantidade do que lançou ataques contra o PT. É a mesma história de sempre: Aécio foi considerado o "mais agressivo" nos debates por ter sido mais frouxo. É que o PT atacava muito mais e ao mesmo tempo colocou como um dos rótulos de ataque "agressivo contra as mulheres". Em suma: quando o tucano é visto como "agressivo" ou "pouco propositivo" não é que tenha sido nenhuma dessas coisas. É que ele ele foi atacado com o lançamento destes rótulos sobre ele em maior quantidade.
Na inauguração da nova fase, o presidente do PSDB vai propor nesta terça-feira, 16, a Renan, em reunião de líderes partidários, ao menos quatro propostas consideradas prioritárias pelo PSDB para a pauta do Senado: 1) o projeto do senador José Serra (PSDB-SP) que desobriga a Petrobrás de ser a operadora única na exploração da camada do pré-sal; 2) um que cria regras de governança em estatais, relatado pelo senador Tasso Jereissati (PSDB-CE); 3) um de autoria do senador Paulo Bauer (PSDB-SC), relatado pelo próprio Aécio, que visa a diminuir a influência política na gestão dos fundos de pensão; e 4) uma proposta do senador que restringe a quantidade de cargos em comissão na administração pública, estabelecendo processo seletivo.
Pois é... as pautas até que são boas. Mas é preciso ir para o ataque, e ao que parece o tom de Aécio tem sido aumentar a frouxidão.
Outros oposicionistas já percebem que a nova tática parece ser mesmo a malemolência:
A nova estratégia de atuação do PSDB na Câmara não foi bem recebida por outros partidos da oposição na Casa. Demonstrando incômodo, líderes oposicionistas criticaram ontem a sinalização que tucanos vêm dando ao governo de apoio a reformas estruturantes, como a da Previdência Social.
"O governo do PT não merece qualquer condescendência, porque eles imaginam a economia de uma forma completamente distinta do que são os fundamentos da economia", reagiu o líder do DEM, Pauderney Avelino (AM). "Não vamos concordar com qualquer proposta de arrocho à população por parte desse governo", emendou. O democrata conta que só soube da nova estratégia do PSDB por meio da imprensa. Irritado, ele decidiu procurar os líderes do PSDB, PPS e Solidariedade e propor uma reunião nesta terça-feira, para discutir o assunto. "Não quero fazer discurso de bom moço, porque o PT, o Lula e a Dilma não são bons moços", disse.
Presidente do Solidariedade, o deputado Paulo Peireira da Silva (SP) também criticou a estratégia do PSDB. "É um erro falar que vai apoiar reformas que tiram direito do trabalhador, principalmente a da Previdência", criticou Paulinho, que é presidente da Força Sindical. "Com essa postura, não tem como trabalharmos juntos", afirmou.
No PPS, o tom foi mais moderado. O vice-líder da sigla na Câmara, Arnaldo Jordy (PA), disse que o PPS respeita a soberania partidária do PSDB, mas cobrou que os tucanos esclareçam a estratégia. "Que reformas pretendem apoiar? Quais são as propostas estão dispostos a discutir?", questionou o deputado paraense.
Como já foi dito, é isto aí: está agindo como frouxo e todos já estão percebendo. Assim como ele fez nas eleições de 2014, afrouxando enquanto devia ir para o ataque, isto é uma escolha. Com isto, ele vai afundar.
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