O Marché Saint-Germain e Donald Trump
Por Mario Sabino
Ao lado da minha casa parisiense, fica o Marché Saint-Germain, construído por Napoleão Bonaparte há mais de duzentos anos. Até pouco tempo atrás, a sua loja mais chamativa era uma das tantas Gap que existem por aqui.
Neste momento, estão terminando uma reforma iniciada há cerca de um ano e meio. Saiu a Gap e já entraram uma Uniqlo (japonesa) e um supermercado Marks & Spencer Food (inglês). Em breve, será inaugurada uma loja da americana Apple. Em breve, as arcadas do novo Marché Saint-Germain devem deixar de ser abrigo para os imigrantes do Leste Europeu que por lá ainda se instalam para dormir.
O Marché Saint-Germain resume o processo de globalização que ganhou impulso extraordinário há quase trinta anos, depois do fim da Guerra Fria. A Uniqlo vende artigos desenhados no Japão, mas fabricados na China, Vietnã e outros países asiáticos. A Marks & Spencer vende apenas produtos ingleses (embora haja garrafas de Chablis perto dos caixas). Franceses comprando pães fabricados do outro lado do Canal é uma dessas visões que pareciam surrealistas na década de 70 (e eu espero que o Brexit não evite que eu possa comer a bom preço hot cross buns). Quanto à Apple, apesar do “made in China” dos iPhones, os componentes dos seus celulares desenhados na Califórnia são fabricados nos seguintes países: Coreia do Sul, Cingapura, Taiwan, Holanda, Itália, França, Alemanha, além da China, obviamente, e Estados Unidos, por incrível que pareça a Donald Trump.
As fronteiras ficaram menos rígidas, ainda, para as pessoas. Os romenos e búlgaros que dormem legalmente sob as arcadas do Marché Saint-Germain não diferem muito dos latinos que afluem ilegalmente aos Estados Unidos ou dos milhares de africanos e árabes que desesperadamente buscam uma chance na Inglaterra ou Alemanha. É esperável que, daqui a quinze ou vinte anos, os filhos desses romenos e búlgaros estejam trabalhando na Apple do Marché Saint-Germain ou, sendo mais otimista, nas lojas Apple de Bucareste ou Sófia. A globalização precisa estender os seus benefícios às regiões remotas e conflagradas — e, dessa forma, resulte no fim das emigrações maciças.
De acordo com a Foreign Affairs, a globalização, por si só, criou 27 milhões de empregos nos Estados Unidos, entre 1990 e 2008, nos setores exclusivamente domésticos— ao passo que apenas 600 mil naqueles que passaram a competir com os dos países emergentes, exemplo da indústria automobilística. Feitas as contas, porém, os americanos no geral enriqueceram aceleradamente, não o contrário. Assim como os chineses, coreanos, mexicanos e até romenos e búlgaros.
A globalização forma um conjunto de soluções que embute vários problemas, todos menores do que existiam antes dela. Os ricos ficaram mais ricos e distantes dos pobres? Sim. Mas os pobres se tornaram bem menos pobres.
É estranho que Donald Trump queira que o Marché Saint-Germain seja o mesmo da época de Napoleão Bonaparte.
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