Hoje se celebram os mortos.
E quando àquela que nos deixa foi uma paixão que houve, mas que não teve pernas, não pôde caminhar, mergulhou no delicioso mar dos sonhos, e que nunca, nunca mesmo, aconteceu, só nos resta visitar Camões, que cantou, como ninguém, a dor dessa perda sem reparo.
Alma minha gentil, que te partiste,
Tão cedo desta vida descontente:
Repousa lá no céu eternamente
E viva eu cá na terra sempre triste!
Se lá, no assento etéreo onde subiste,
Memória desta vida se consente,
Não te esqueça daquele amor ardente
Que já nos olhos meus tão puro viste.
E se vires que pode merecer-te
Alguma cousa a dor que me ficou
Da mágoa, sem remédio, de perder-te,
Roga a Deus, que teus anos encurtou,
Que tão cedo de cá me leve a ver-te
Quão cedo de meus olhos te levou!
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