Se você luta por ambições democráticas, querendo que suas demandas sejam aprovadas e seus candidatos cheguem ao poder - exatamente como aconteceu recentemente na Argentina, com Macri, e na Venezuela, com deputados de oposição tomando a maior parte das cadeiras - provavelmente já se defrontou com alguns negacionistas dizendo: "desista da democracia, ela não existe mais no Brasil".
Como em quase todas as rotinas negacionistas, o discurso é fraudulento, embora algumas pessoas sejam honestas ao proferi-lo. E outras nem tanto.
O discurso, obviamente, como sempre envolve um subtexto: "Se não há mais democracia, então a única alternativa é a luta violenta". Eles dão vários nomes a esse tipo de luta: existem alguns clamando por "intervenção militar" e outros por "desobediência civil" (ou até "revolução não violenta"). Com isto, buscam desestimular todos que lutam pelas vias democráticas. É como se em um campeonato de futebol, você tivesse que escolher entre tentar vencer em campo ou bolar formas de subornar o juiz para ele interferir a seu favor.
É preciso de racionalidade nesses momentos, pois em realidade os negacionistas omitem um aspecto fulcral: a democracia dificilmente deixaria de existir nas modernas tiranias, pois nelas não se implantam ditaduras tradicionais, mas ditaduras sutis. Logo, os modelos de democracia são mantidos, mas com tamanha ocupação de espaços que ele não se diferencia de uma ditadura tradicional. Na verdade, é até mais perigoso que uma ditadura tradicional, por seu poder de dissimulação. Mas mesmo nesses modelos há formas de se derrubar uma ditadura sutil.
Outro ponto a considerar que é de fato vivemos em uma ditadura sutil, mas a isto se complementa com a seguinte informação: ainda existem alternativas democráticas de luta.
Enfim, há uma manipulação semântica do termo ditadura por aquele dizendo "democracia não existe mais no Brasil" quando isto é utilizado como forma de justificar as lutas mais violentas. Observemos os padrões se manifestando abaixo:
- D: Vamos pedir impeachment de Dilma por crime de responsabilidade.
- R: Democracia não existe mais no Brasil, logo, não adianta pedir impeachment, mas chamar o exército e intervir.
Como se vê, o problema não está em constatar a existência de uma ditadura sutil no Brasil, mas em apontar a inexistência absoluta de democracia como forma de justificar ações violentas e/ou ditatoriais. Mesmo que alguns digam clamar por "desobediência civil", em geral isto significa o pedido para centenas ou milhares de pessoas irem às ruas, morrerem nas mãos das tropas governistas, e, enfim, justificarem a entrada de um exército para colocar ordem na suruba. Até porque praticamente não há surpresa em visualizar naqueles pedindo hoje "desobediência civil" pedidos feitos, no passado, por intervenção militar.
Os modelos de tomada de poder pela força não tem se mostrado eficientes para derrubar uma ditadura sutil. Aliás, elas próprias criaram o advento das revoluções não violentas. Também podemos apontar que muitos daqueles dizendo "desista da democracia, vamos agora pela revolução, via guerra civil ou exército" estão vendendo um tapete voador.
A única forma de se tomar o poder eficientemente na era das tiranias modernas é pela ocupação de espaços pelas vias democráticas, que não é diferente daquilo que o PT fez ao iniciar suas atividades até mesmo durante o regime militar. Qualquer outra alternativa de negação da política geralmente esbarra em inconsistências lógicas e políticas, e geralmente se amparam em charlatanismo.
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